GASTRONOMIA | HISTÓRIA | BELO HORIZONTE
Do centenário Bar do Orlando ao tradicional Café Palhares, conheça seis estabelecimentos que atravessaram gerações preservando a gastronomia, a boemia e a memória da capital mineira.
BELO HORIZONTE (MG) — Conhecida nacionalmente pela tradição dos bares e botecos, Belo Horizonte possui estabelecimentos que ajudam a contar a história da cidade. Muitos começaram como pequenas mercearias e pontos de encontro de trabalhadores, transformando-se em referências culturais e gastronômicas ao longo das décadas.
Entre esses locais está o Bar do Orlando, fundado em 1919, no bairro Santa Tereza, considerado o bar mais antigo de Belo Horizonte ainda em funcionamento. Em 2026, o estabelecimento completa 107 anos de história.
Outros endereços tradicionais, como o Café Palhares, o Bola Bar, o Bolão, a Cantina do Lucas e o Bar do Nonô, também atravessaram diferentes períodos da capital mineira.
Esta reportagem reúne seis casas com longa trajetória documentada, incluindo bares, um café e uma cantina. A seleção não representa um levantamento exaustivo de todos os estabelecimentos mais antigos da cidade.
Galeria de fotos: estabelecimentos históricos de BH
As imagens desta galeria são registros fotográficos de estabelecimentos históricos. Os demais bares citados na reportagem podem ser conhecidos por meio de suas páginas oficiais, com fotografias e informações sobre cada local.
1. Bar do Orlando: 107 anos de tradição em Santa Tereza
Fundado em 1919, o Bar do Orlando é considerado o estabelecimento do gênero mais antigo de Belo Horizonte que permanece em funcionamento.
Sua história começou com o nome Bar dos Pescadores, quando funcionava como uma pequena venda de artigos de pesca na região de Santa Tereza.
O local comercializava produtos como anzóis e varas, além de atender pescadores que circulavam pela região próxima ao Rio Arrudas.
Com a expansão urbana, as atividades ligadas à pesca perderam espaço, e o estabelecimento passou a concentrar seu atendimento em bebidas e refeições.
Em 1980, Orlando assumiu a administração do comércio, que passou a ser conhecido pelo nome atual.
O ambiente ainda preserva elementos característicos dos antigos botequins mineiros, como prateleiras, estufa de petiscos e mesas destinadas à convivência dos frequentadores.
Entre as especialidades da casa está o tradicional Torresmão. O local também se tornou ponto de encontro para apresentações de samba e música popular brasileira.
Bar do Orlando
Fundação: 1919
Bairro: Santa Tereza
Endereço: Rua Alvinópolis, 460
Especialidade: Torresmão e petiscos
tradicionais.
Conheça o bar e veja fotografias oficiais
2. Bola Bar: a tradição do Padre Eustáquio desde os anos 1930
O Bola Bar é um dos estabelecimentos mais tradicionais da região Noroeste de Belo Horizonte.
Sua origem remonta à década de 1930, quando era conhecido como Bar e Mercearia Progresso, administrado por Zé Delfino.
Em 1972, o negócio foi adquirido por Ademir e Luizinho e passou a utilizar o nome Bola Bar.
Uma de suas principais características é a tradicional estufa de petiscos, que oferece mais de 40 opções de alimentos preparados com receitas caseiras.
Entre as especialidades estão bolinho de carne, jiló empanado, batata corada, legumes recheados e diferentes pratos típicos da culinária de boteco.
A decoração também chama atenção pela coleção de cachaças, distribuída em prateleiras que ocupam uma das paredes.
Sem televisão ou música ambiente como atrações centrais, a casa preserva o clima de conversa e convivência entre os clientes.
Bola Bar
Origem: década de 1930
Nome atual: desde 1972
Bairro: Padre Eustáquio
Endereço: Rua Padre Eustáquio, 2512
Especialidade: estufa de petiscos.
Conheça a história e veja fotografias
3. Café Palhares: tradição gastronômica desde 1938
Fundado em 1938, o Café Palhares é um dos estabelecimentos mais conhecidos da região central de Belo Horizonte.
Ao longo de sua história, tornou-se ponto de encontro de jornalistas, trabalhadores, intelectuais, artistas e frequentadores do Centro.
O local ganhou projeção com a criação do Kaol, um prato tradicional que se tornou símbolo da culinária popular da capital.
A receita foi criada na década de 1950, em uma parceria da família Ferreira com o jornalista Rômulo Paes.
O nome Kaol faz referência à combinação de "Kachaça", arroz, ovo e linguiça.
O tradicional balcão em formato de U continua sendo uma das marcas do estabelecimento, que preserva seu estilo de atendimento.
Em 2026, o Café Palhares completa 88 anos de história.
Café Palhares
Fundação: 1938
Bairro: Centro
Endereço: Rua dos Tupinambás, 623
Especialidade: Kaol.
Conheça o Café Palhares
4. Bolão: o espaguete que marcou gerações em Santa Tereza
Fundado em 1961, o Bolão Santa Tereza começou como um pequeno bar e lanchonete administrado por Dona Maria e Seu Rocha.
O estabelecimento funcionava nas proximidades da Praça Duque de Caxias e passou a oferecer refeições para trabalhadores e moradores do bairro.
O espaguete tornou-se a especialidade mais conhecida da casa.
Inicialmente, o prato conquistou taxistas e profissionais que trabalhavam durante a noite e a madrugada.
A fama cresceu e o Bolão passou a receber músicos, artistas e frequentadores da vida noturna de Belo Horizonte.
Nomes ligados ao Clube da Esquina, ao Skank e ao Sepultura figuram entre os frequentadores históricos do estabelecimento, segundo o inventário da Belotur.
Até 2014, o restaurante funcionava 24 horas por dia. A tradição familiar continua presente na administração do negócio.
Bolão Santa Tereza
Fundação: 1961
Bairro: Santa Tereza
Endereço: Praça Duque de Caxias, 288
Especialidades: espaguete e Rochedão.
Conheça a história do Bolão
5. Cantina do Lucas: gastronomia e memória cultural desde 1962
Localizada no Edifício Arcângelo Maletta, no Centro de Belo Horizonte, a Cantina do Lucas é um dos estabelecimentos mais conhecidos da história gastronômica da capital.
A casa foi fundada em 1962, inicialmente com o nome Chopplândia.
Depois de mudanças de administração e identidade, passou a se chamar Cantina do Lucas em 1966.
Ao longo das décadas, o estabelecimento tornou-se ponto de encontro de artistas, jornalistas, escritores, músicos e intelectuais.
Durante o período da ditadura militar, a cantina também foi um importante espaço de convivência e discussões sobre cultura e política.
Entre os frequentadores históricos estiveram Milton Nascimento e Toninho Horta.
Em 1997, a Cantina do Lucas foi tombada como Patrimônio Cultural de Belo Horizonte, em reconhecimento à sua importância histórica.
O estabelecimento preserva características clássicas na decoração e no atendimento. Entre suas especialidades estão o Filé Surprise, o Filé à Parmegiana e o Arroz à Piamontese.
Cantina do Lucas
Fundação: 1962
Nome atual: desde 1966
Bairro: Centro
Endereço: Avenida Augusto de Lima, 233,
loja 18, Edifício Maletta
Destaque: patrimônio cultural desde 1997.
Conheça a história da Cantina
6. Bar do Nonô: o Rei do Mocotó desde 1964
O Bar do Nonô é uma das referências mais tradicionais da gastronomia popular do Centro de Belo Horizonte.
Fundado em 1964, o empreendimento iniciou sua trajetória na região do Barreiro, atendendo trabalhadores e moradores próximos à antiga linha ferroviária.
Em 1968, o bar transferiu suas atividades para a Avenida Amazonas, no Centro, onde se consolidou.
A principal especialidade é o caldo de mocotó, preparado com uma receita familiar preservada ao longo das gerações.
O espaço é conhecido pelo atendimento no balcão, sem cadeiras, reunindo clientes de diferentes profissões e idades.
Com a continuidade do negócio pela família dos fundadores, o Bar do Nonô tornou-se um símbolo da alimentação tradicional dos trabalhadores da região central.
Bar do Nonô
Fundação: 1964
No Centro: desde 1968
Endereço: Avenida Amazonas, 840
Especialidade: caldo de mocotó.
Conheça o Bar do Nonô
Linha do tempo dos bares históricos
- 1919: Fundação do Bar dos Pescadores, atual Bar do Orlando.
- Década de 1930: Surgimento do Bar e Mercearia Progresso, origem do Bola Bar.
- 1938: Fundação do Café Palhares.
- 1961: Início das atividades do Bolão Santa Tereza.
- 1962: Fundação do estabelecimento que viria a se tornar a Cantina do Lucas.
- 1964: Fundação do Bar do Nonô, na região do Barreiro.
- 1966: A Cantina do Lucas adota seu nome atual.
- 1968: O Nonô muda-se para o Centro de Belo Horizonte.
- 1972: O antigo Bar e Mercearia Progresso passa a ser conhecido como Bola Bar.
- 1997: A Cantina do Lucas recebe proteção como patrimônio cultural de Belo Horizonte.
Bares com Alma: a valorização da boemia de Belo Horizonte
A importância dos bares tradicionais também é reconhecida pelo poder público e por entidades ligadas ao turismo.
Em 2024, a Belotur, em parceria com o Sebrae Minas, divulgou o projeto Bares com Alma, que reuniu estabelecimentos representativos da identidade boêmia de Belo Horizonte.
A iniciativa buscou valorizar histórias, receitas, ambientes e tradições preservadas pelos estabelecimentos.
Mais do que pontos de consumo, esses bares representam espaços de memória, convivência e identidade cultural da capital.
Por que vale a pena conhecer esses lugares?
Visitar estabelecimentos históricos de Belo Horizonte é uma oportunidade de conhecer a cidade por meio de sua gastronomia e de suas tradições.
Cada bar tem características próprias: a simplicidade do Bar do Orlando, a estufa do Bola Bar, o Kaol do Café Palhares, o espaguete do Bolão, a história cultural da Cantina do Lucas e o mocotó do Nonô.
Juntos, esses estabelecimentos ajudam a preservar uma parte importante da memória afetiva de Belo Horizonte.
Antes da visita, é recomendável consultar os dias e horários de atendimento, que podem mudar em feriados ou ocasiões especiais.
Fontes da reportagem
A reportagem foi desenvolvida com base no inventário Bares com Alma, do Portal Oficial de Belo Horizonte, e nas informações históricas dos estabelecimentos.
Belotur — Inventário Bares com Alma
Sou Mais BH — Gastronomia, cultura, história e notícias de Belo Horizonte e Região Metropolitana.
